terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O deputado que acha bonito ser misógino

O tal do Bolsonaro disse para a também deputada Maria do Rosário "são não te estupro porque você não merece".
Isso é abominável em tantos níveis que eu fiquei até meio perturbada com essa declaração, até porque as informações que saíram na mídia é que ele já havia feito esse tipo de declaração direcionada a referida deputada em 2003. Na primeira vez, nada foi feito. Dessa vez, outras deputadas já saíram em defesa da ofendida e já há, inclusive, proposta de alteração do Código de Ética parlamentar para tratar de agressões machistas. 
Eu tô torcendo muito pra que dê uma quebra de decoro parlamentar que resulta em cassação do mandato. Esse cara já falou tantas atrocidades, já atentou contra direitos humanos e até agora nada foi feito. Quem sabe depois dessa os próprios parlamentares - homens e mulheres - façam algo pra que isso pare.
Como bem disse a Manuela D'Ávila: "quando ele diz que ela não merece ser estuprada, diz subliminarmente que 1) algumas mulheres merecem 2) que ele é potencial estuprador. 
Uma pessoa que tem coragem de fazer esse discurso misógino só faz pq sabe que nada vai acontecer, que ele pode falar sem que tome nenhuma punição e também pq sabe que esse é o senso comum: as pessoas realmente acreditam que existem mulheres que merecem ser estupradas. Essa mentalidade precisa mudar. Nenhuma mulher. NENHUMA. N E N H U M A mulher merece ser estuprada. Se você acha que "ah mas nessa situação ela merecia" NÃAAAAO!!! NÃO MERECE.
É sério, gente, vamos tentar mudar essa mentalidade pra que Bolsonaro e seus seguidores (tem gente que quer que o misógino seja presidente!!) não possam mais dar esse tipo de declaração e, caso resolvam abrir a boca pra cagar, que sejam punidos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Força, Andressa!



A nossa eterna vice miss bumbum, Andressa Urach, está mal - internada, respirando com a ajuda de aparelhos, após uma complicação de uma aplicação de hidrogel feita há 5 anos - e estou aqui torcendo muito por ela pra que ela saia bem dessa! O triste é ver o quanto de pessoas está debochando da situação, dizendo que "ela quer aparecer", falando que "bem feito, quem mandou ser vaidosa e fazer esses procedimentos", "é so uma subcelebridade que ta sofrendo as consequências das atitudes". 
Meu, o que é isso? Que falta de empatia é essa? Então um ser humano está mal, e você pensa "bem feito"? Humanidade mandou lembranças! Humanidade e coerência também. Pensem só: hoje vivemos em uma sociedade na qual nós mulheres devemos alcançar um padrão de beleza...inalcançável. Eu, por exemplo, que sou bem magra, estou fora do padrão, pq tem que ser magra, mas  ~com curvas~  então tenho que fazer musculação, botar um silicone, comer mais. Quem é gorda não pode ser gorda, pq "hoje em dia tem muitos métodos pra emagrecer e fechar  a boca é de graça", ser gorda é uma verdadeira heresia. Quem é gostosa é fútil pq "deveria se importar com coisas mais importantes que beleza", especialmente se conseguiu isso através de procedimentos estéticos, afinal, "beleza tem que ser natural". Oi???? Então se eu não me utilizo dos métodos artificias eu tô errada e se eu uso eu tô errada também? 
Andressinha é vítima - assim como todas nós, mulheres -   dessa  busca implacável pela beleza. Quantas mulheres morrem por fazer procedimentos estéticos e cirúrgicos totalmente desnecessários apenas na ânsia de se encaixar nesse modelo? Eu nunca fiz nenhum procedimento, mais por falta de grana e coragem, mas não estou satisfeita com meu corpo, gostaria de mudar muitas coisas, e creio que muitas outras mulheres também se olhem no espelho e pensem que tem sempre algo pra mudar, pra aperfeiçoar. Gostaria de viver em um mundo em que todas nós fôssemos belas simplesmente pela nossa essência, pelo que somos e não apenas por um corpo que a sociedade insiste em objetificar.
No fim das contas, todas queremos ficar bonitas, sermos aceitas. Somos todas Andressa.
Melhoras pra Dedessa Urach! 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O que a comoção gerada pela ex-modelo viciada em crack revela sobre a sociedade brasileira



Esses dias fiquei sabendo da história de uma ex-modelo que foi encontrada morando nas ruas. A triste história foi revelada pela Veja São Paulo e logo em seguida divulgada por diversos portais. Logo, todas as emissoras queriam entrevistas com a moça, participação em programas, falam até em reality show com ela. A comoção espalhou-se e logo todos queriam ajudá-la a sair da difícil situação em que se encontra, largar o vício e quem sabe até retomar a carreira. 
Considero tudo isso muito válido, afinal muita gente precisa de ajuda e apoio pra conseguir sair de determinadas situações, especialmente essas nas quais o vício leva a viver em situações degradantes (sem fazer aqui juízo de valor acerca da legalização das drogas), o problema é: existem milhares de outras pessoas nessa situação e nenhuma emissora de TV quer fazer reality show com elas, nem mesmo tentar ajudar a sair do vício, sair das ruas e reconstruir a vida. Porque isso? Qual a diferença entre a modelo - que não coincidentemente é magra, loira, de olhos claros -
e as demais pessoas nessa situação? Por que esses outros estão lá há tanto tempo e ninguém se preocupa em tentar ajudá-los? Por que apenas essa moça chamou atenção? 
Obviamente essa moça merece toda a ajuda possível e necessária, mas o que quero deixar bem claro aqui é: e os outros? Será que eles não merecem a mesma atenção, a mesma comoção por parte da sociedade? 
O que fica muito claro é que as pessoas veem aquela mulher branca, loira, alta e pensam "ela não pertence a esse mundo, vamos tirá-la dali", mas as outras centenas de pessoas, negras na sua maioria, que estão nas ruas todos os dias, que também tinham uma vida - podia não ser uma vida glamourosa de modelo, mas ainda assim viviam, tinham emprego, talvez família constituída, amigos, sonhos, planos - mas aparentemente consideram normal que estejam ali, afinal são negros e pobres, eles sim pertencem a esse mundo, um mundo desumano, um mundo que está apartado do nosso, totalmente esquecido (propositalmente, diria). Isso só demonstra o quanto a nossa sociedade ainda é racista. 
Negros e pardos podem estar em situação de miséria extrema, tendo que praticar pequenos furtos, até mesmo assaltos, para sobreviver e sustentar o vício,  mas tudo bem, é assim mesmo. O Brasil inteiro conhece, ou pelo menos já ouviu falar, na cracolândia e das condições a que as pessoas estão passando, mas o descaso do governo e da sociedade parece estar de tal forma enraizado que é natural pensar naquelas pessoas e simplesmente dizer "estão assim pq querem", são "um bando de drogados", "bando de
vagabundos". Agora uma pessoa branca de olhos claros está lá e automaticamente todo mundo pensa "nossa, o que ela tá fazendo aí???". O nome disso, meusa migos, é racismo. Sim, racismo. A moça branca deve estar linda e feliz modelando e as milhares de negras e negros podem ficar ali por anos e anos e ninguém dar a menor importância? Por que será que o Rodrigo Faro nunca foi andar por lá pra ajudar qualquer uma daquelas pessoas? Por que uns merecem atenção e outros descaso? O racismo estrutural coloca que brancos são superiores e têm privilégios. O que ocorre nesse caso é exatamente isso: a moça que deveria ser privilegiada está no meio dos que não têm privilégio algum.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A nova série da Globo - Eu que amo tanto (e que estou odiando)



A Rede Globo, mais uma vez, começou a transmitir uma série (ou minissérie, não sei o nome) de conteúdo questionável. Na verdade, creio que dizer que o conteúdo é "questionável" pode até ser considerado eufemismo, já que eu enxergo passar esse tipo de programa como uma verdadeira irresponsabilidade social.
Eu vi as chamadas do troço e já pensei "puta que pariu, lá vem mais um programa pra ajudar a dizer que somos loucas e desequilibradas"  pq né, já tem pouco, manda mais. Nem lembro o motivo, mas não vi os dois primeiros episódios e no último domingo (23.11) eu lembrei e coloquei no Fantástico, torcendo para que não tivesse perdido. Pra minha sorte (ou azar) ia começar justamente naquele bloco. O epi era sobre uma mulher casada com um homem que larga esse casamento após apaixonar-se por outra mulher para ~viver esse amor~ com ela.
A personagem principal (cujo nome esqueci, apesar de ter achado magistral a interpretação de Marjorie Estiano) começa a ter crises de ciúme absurdas, chega a quebrar a casa toda, fazer escândalo na rua, e, no dia em que a sua parceira termina o relacionamento, ela surta no supermercado. E a conclusão que fica: nenhuma. Ela só fica parecendo uma maluca mesmo que "ama demais". 
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Eu  tava sabendo que a série era baseada num Livro homônimo da Marília Gabriela, que por sua vez foi inspirado num outro livro, best-seller internacional, Mulheres que Amam Demais - "Robin Norwood escreveu o livro baseado na sua própria experiência e na experiência de centenas de mulheres envolvidas com dependentes químicos. Ela percebeu um padrão de comportamento comum em todas elas e as chamou de "mulheres que amam demais" (aqui você pode ler mais). A obra de Robin Norwood tem um objetivo claro: "ajudar mulheres persistem num relacionamento inacessível e insensato, mas ainda assim, são incapazes de rompê-lo". O que Robin quer é mostrar que devemos pensar em nós mesmas, ser felizes por nós e não por alguém que não retribui o amor que sentimos, nos faz sofrer e simplesmente não muda de atitude.

No episódio que eu assisti, simplesmente jogaram a história e terminou sem final, sem uma explicação praquilo tudo. Como disse, só deixou a mulher parecendo uma louca, desvairada, sem noção.
A produção poderia ter colocado pelo menos no primeiro episódio o que significa esse "amo tanto". Pesquisei e não me surpreendi com o fato de que não, ninguém explicou nada nos episódios anteriores. Colocaram histórias completamente descontextualizadas, com um objetivo que eu sinceramente desconheço, mas só consigo pensar que é pra dizer que somos loucas.
No maravilhoso Lugar de Mulher encontrei um post excelente que diz EXATAMENTE TUDO o que tem pra ser dito sobre a tal série, até mesmo mostra quais as possíveis causas para que uma mulher se torne uma mulher que ama demais, segundo Robin Norwood:
  1. Vem de um lar desajustado, em que suas necessidades emocionais não foram satisfeitas;
  2. Como não recebeu um mínimo de atenção, tenta suprir essa necessidade insatisfeita através de outra pessoa, tornando-se superatenciosa, principalmente com homens aparentemente carentes;
  3. Como não pode transformar seus pais nas pessoas atenciosas, amáveis e afetuosas de que precisava, reage fortemente ao tipo de homem familiar, porém inacessível, o qual tenta, transformar através de seu amor;
  4. Com medo de ser abandonada, faz qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento;
  5. Quase nada é problema, toma muito tempo ou mesmo custa demais, se for para “ajudar” o homem com quem esta envolvida;
  6. Habituada à falta de amor em relacionamentos pessoais, está disposta a ter paciência, esperança, tentando agradar cada vez mais;
  7. Está disposta a arcar com mais de 50% da responsabilidade, da culpa e das falhas em qualquer relacionamento;
  8. Sua auto-estima está criticamente baixa, e no fundo não acredita que mereça ser feliz. Ao contrário, acredita que deve conquistar o direito de desfrutar a vida;
  9. Como experimentou pouca segurança na infância, tem uma necessidade desesperadora de controlar seus homens e seus relacionamentos. Mascara seus esforços para controlar pessoas e situações, mostrando-se “prestativa”;
  10. Esta muito mais em contato com o sonho de como o relacionamento poderia ser, do que com a realidade da situação;
  11. Tem tendência psicológica, e com freqüência, bioquímica a se tornar dependente de drogas, álcool e/ou certos tipos de alimento, principalmente doces;
  12. Ao ser atraída por pessoas com problemas que precisam de solução, ou ao se envolver em situações caóticas, incertas e dolorosas emocionalmente, evita concentrar a responsabilidade em si própria;
  13. Tende a ter momentos de depressão, e tenta previni-los através da agitação criada por um relacionamento instável;
  14. Não tem atração por homens gentis, estáveis, seguros e que estão interessados nela. Acha que esses homens “agradáveis” são enfadonhos.
Então, galera, com o mínimo de contexto todo mundo teria entendido que ninguém gosta de apanhar, de ser humilhada, que não é um-ciúme-maluco-e-sem-sentido que mulheres (todas loucas) sentem. Permanecer em relacionamentos doentios e aceitar a conduta de parceiros que não mudam nunca, apenas abusam mais da mulher, é sintoma de um problema sério, não é uma "paixão bandida" PELAMORDDS NÃO DIGAM ISSO. Encerro com:
"A MADA não é uma mulher louca, não é uma desequilibrada, não é uma coitada que só aprendeu um background emocional ruim – ela é, antes de tudo, uma codependente. E a codependência é uma bagagem social tipicamente feminina em uma sociedade machista e patriarcal. Afinal, nós somos criadas desde pequenas para sermos princesas – sofrendo, nos envenenando, dormindo um sono de morte, reformando a ‘fera’ para que ela se torne um príncipe encantado. Beijando sapos, e nos afogando com eles. Isso é uma MADA – a mulher que é viciada na ilusão de controle de um relacionamento, seja ele desequilibrado ou não. E esse é um vício extremamente poderoso, quem já se sentou em uma reunião do MADA sabe disso muito bem".





segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Melô do PSDB -

Lembram daquela musiquinha do grupo 'As meninas', que fez muito sucesso no início dos anos 2000 (ou final dos anos 90, algo assim), e era mais ou menos assim "e o rico cada vez fica mais rico. e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima, sobe e o debaixo, desce"? Ela fez muito sucesso numa época em que o Brasil ia mal. Mal mesmo. O desemprego e a misérias reinavam no país e a música fez sucesso exatamente porque refletia o momento que vivíamos. Uma época em que os ricos ficavam cada dia mais ricos e os pobres cada dia mais pobres.
Se essa música fosse lançada hoje, ela não faria sentido, afinal, o Brasil é modelo no combate à fome, miséria e desigualdade social - inclusive tendo saído do mapa da fome mapa da fome da ONU. O primeiro país a atingir um dos objetivos do milênio!
Infelizmente, essa música engraçadinha pode voltar a fazer sentido, dependendo de quem será eleito no próximo domingo. Não sou paga por ninguém e odeio terrorismo, campanha de medo e etc, mas o que a população precisa? Será que queremos aquele modelo neoliberal (o adotado pelo governo FHC, leia-se) que privilegia empresários milionários em detrimento da população geral ou queremos melhorias para todos, indistintamente?
Eu sei que eu quero continuar num país cujo governo busca dar oportunidades para todos, reduzindo fome, desemprego, taxas de juros e ingerências de organismo internacionais na nossa economia (leia-se: FMI).
Não estou aqui para mudar o voto de ninguém, acho que a essa altura do campeonato, nem seria possível, mas tem muita gente indecisa que deveria ver bem qual seus interesses.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Blog Action Day 2014 - A luta do feminismo

Hoje, 16.10.2014, é dia do blog action day 2014, que é uma espécie de evento que acontece desde 2007 na internet no qual ~blogueiros~ do mundo todo, em um dia escolhido pela organização, para falar sobre um tema específico. São sempre assuntos muito importantes e nesse dia as pessoas usam a internet para chamar atenção para o tema escolhido. Descobri há alguns dias que esse blog action day existia e resolvi participar. O tópico do ano é desigualdade.

A desigualdade reina no nosso planeta. E ela é de todo tipo: econômica, racial, orientação sexual e de gênero. E ela mata. Sim, a desigualdade mata milhares de pessoas todos os anos. A desigualdade econômica mata pessoas que simplesmente não tem o que comer - é só você ter em mente que 1% da população mundial concentra metade da riqueza do planeta. O racismo mata (vide caso Ferguson, nos E.U.A). A homo/lesbo/bi/transfobia, adivinhem só: mata também.  E, por último, mas não menos importante, o machismo mata. E vou utilizar meu espaço no blog action day exatamente para (tentar) abordar algumas nuances do machismo.

Há quem diga que machismo não existe, que as mulheres já conquistaram todos os direitos dos homens, afinal elas podem trabalhar, escolher com quem casar, podem até votar...querem mais o quê? Mas, será mesmo que feminismo era apenas sobre isso? Não que essas não sejam conquistas válidas, muito pelo contrário, são importantíssimas. Por muito tempo as mulheres tinham que ficar apenas em casa cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos. Trabalhar? Nem pensar! OPA! Mas..peraí? Será que era assim com todas as mulheres? Não. As mulheres negras (que quase sempre eram as mais pobres), por exemplo, não eram impedidas de trabalhar, muito pelo contrário, elas precisavam trabalhar para complementar a renda. De toda forma, o fato de poder ter autonomia sobre o corpo, de votar e ser votada, estudar e crescer na vida as mulheres conseguiram, a questão é: até que ponto.

Até que ponto todas nós temos liberdade para fazer o que quisermos com o nossos corpos? Será que essa liberdade é plena? Digo que não. Se usamos roupa curta (para mostrar o corpo que é nosso), somos vadias, piranhas, vagabundas. Se, ao contrário, somos discretas, quase sempre taxadas de frígidas, santinhas (que tem sentido pejorativo sim) e ainda nos dizem "ah você deveria se valorizar mais, assim nunca vai arrumar um namorado", se usa muita maquiagem, é fútil; se não usa nenhuma é porque não gosta de ~se cuidar; se é muito magra também é ruim pq "homem gosta de carne", se é gorda é preguiçosa e tem que fazer regimes insanos e ir pra academia; se corresponde ao padrão de beleza, é fútil, burra, incompetente - nao sei qual motivo, mas as pessoas, principalmente os homens, tendem a acreditar que mulheres bonitas são burras - e pior ainda, quando são feias (leia-se: não atendem ao padrão de beleza vigente) são criticadas, porque só pode ser desleixo. Nós mulheres não podem ser donas nem da nossa própria aparência, porque a sociedade machista quer sempre ditar os nossos comportamentos.

Não bastasse isso, até na hora de escolher profissão: aquela dicotomia horrorosa de "isso é trabalho de homem, aquilo é de mulher". Não tenho dados, mas sei que nas áreas que envolvem as ciências exatas, o número de mulheres é bem reduzido. Será que aquela aquela historia de que mulheres são ruins em matemática é  verdade? MAS É CLARO QUE NÃO. Nós simplesmente não costumamos ser estimuladas, quando crianças, para que essas aptidões se desenvolvam. Então você encontra nas áreas de ciências exatas um número bem maior de homens. As mulheres que chegam lá costumam sofrer muito preconceito, vítimas diretas do machismo que nos diz todos os dias que mulheres têm que trabalhar apenas na área de humanas porque são mais sentimentais, que não temos competência para nos especializarmos e trabalharmos na área que quisermos pq "isso não é coisa de mulher".

Eu sou péssima em matemática. Muito ruim mesmo. Mas não foi falta de estímulo. Minha mãe sempre, desde criança, me dava brinquedos educativos, com formas geométricas, brinquedos de montar, muito quebra-cabeça (desses eu gosto até hoje). Ela me dava bonecas também, eu gostava de barbie e dessas bonecas bebês, mas uma coisa que a minha mãe nunca fez foi me dar outros típicos brinquedos de menina: coisas de cozinha. Aquele fogão, a vassoura, a pia, os jogos de pratos e xícaras. Com tanta coisa pra aprender, pq ela iria me ensinar a fazer tarefas domésticas? Infelizmente, não são todos os pais que pensam assim e acham q esse tipo de brinquedo é "de menina" pq é obrigação da mulher as tarefas domésticas. Não, não é. 

Uma mulher, assim como um homem, tem que saber fazer as atividades de casa sim,  pra saber cuidar de si, não "pra casar". Nunca vi ninguém ensinar meninos  a cozinhar com o argumento de "tem que saber cozinhar pra quando casar". Mas já vi o contrário. E com certa frequência, infelizmente. Não fui criada pra casar. Tudo relacionado a tarefas de casa que minha mãe me ensinou foi dizendo "o dia que tu for morar sozinha e ter a tua vida, tem que saber se virar". E ainda bem que minha mãe me ensinou assim. Gostaria que todas pudessem ter essa oportunidade.

Minhas amigas, ainda tem mais. A nossa aparência não é nossa, a sociedade inteira cuida dela pra que sejamos compelidas a nos achar feias e gastar milhares com produtos de beleza (uma industria muito lucrativa), ou então como se nossa vida inteira devesse ser baseada em nos arrumar pra conseguir homem. Não podemos escolher uma área que gostamos mais pq temos que responder à expectativa de sermos sempre as emocionais que jamais usam a razão. Além disso, precisamos nos submeter a todo tipo de assédio e violência (qualquer tipo de violência, não apenas física) e ainda acham ruim quando reclamamos. Nem na rua, que é pública, temos paz. Chamam de "cantadas", mas eu chamo de ASSÉDIO. Andar na rua e ouvir coisas do tipo "gostosa!", "vou te chupar todinha", "bocetao"..somos abrigadas a aceitar esse tipo de violência??? NÃO, AMIGAS, NÃO SOMOS! Vamos, sim, reclamar, chamar as autoridades competentes, não só pra esse tipo de assédio. No trabalho também, mulheres são vítimas constantes de assédio sexual e muitas, que necessitam do emprego, acabam se submetendo. Tá na hora de dar um basta! Sem mencionar aqui a violência doméstica. Quantas mulheres apanham e morrem pq os esposos pensam ser donos de um objeto? Quantas mulheres na rua são estupradas pq homens se sentem no poder de usar de um corpo sem autorização, apenas pra mostrar que podem tudo? E, pior, o destrato conosco é tão grande que quando queremos denunciar, passamos pelas situações mais constrangedoras possíveis. É polícia despreparada para receber vítimas desse tipo de violência, é falta de equipamentos e profissionais para que possamos fazer os exames de corpo de delito com o mínimo de constrangimento, é a sociedade nos culpando de crime dos quais somos vítimas.

O machismo faz com que não possamos ser dona do nosso corpo. O machismo nos tira nossos desejos e aspirações profissionais. O machismo machuca. O machismo mata! 

Eu, como feminista que sou, estou aqui para convidar todas para lutar contra esse sistema que prime a todas nós (e oprime os homens também), e para dar mais visibilidade ao tema. ao me utilizar do espaço do blog action day. Estou aqui para (tentar) acabar com o mito criado pelo machismo de que mulheres são inimigas, mulheres são fofoqueiras, mulheres não são confiáveis. Esse tipo de discurso serve apenas para nos afastar e, desconfiando uma das outras, deixemos de nos unir para lutar contra todo esse sistema tão cruel. Temos que nos unir.

Feminismo não é sobre mulheres conquistarem o mundo e passarem a oprimir os homens. Feminismo é sobre escolhas, opções, oportunidades para os gêneros. Feminismo é sobre igualdade!


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Moral e Direito

Estamos quase em 2015 e ainda tem estudante de Direito - prestes a se formar!! - que acredita mesmo que a principal atribuição dele será "defender leis". Uma faculdade inteira e não aprenderam que Direito não é só lei, se fosse, seríamos chamados de "operadores da lei" e não de "operadores do direito". Pra quem acredita piamente nisso, que se faz direito com o objetivo puro e simples de se fazer com que a lei seja cumprida/defendida, lembre-se: tudo que Hitler fez estava abarcado pela legislação da época. E aí, você, que se considera um operador de leis, defenderia uma legislação que permitisse tais atrocidades?

A discussão em torno de direito e moral é extensa e antiga. Sabe-se que Direito e Moral não devem se confundir, são distintos, porém possuem sim pontos de intersecção. Tipo aqueles desenhos de matemática lá do ensino fundamental.

Algumas atitudes consideradas imorais não são necessariamente criminosas. Exemplo: adultério é considerado como imoral, contudo, desde 2006 não figura mais no CP como crime. Nesse caso específico, a conduta está no círculo da moral, porém longe da intersecção com o Direito, isso porque não cabe ao Estado prender ninguém por ter violado a fidelidade conjugal (hoje em dia não se pode mais nem falar em efeitos na esfera cível, haja vista não haver mais que se falar em separação judicial e discussão da culpa). 

Há também os pontos convergentes. O racismo é imoral, sabe-se que discriminar seres humanos pela sua etnia é errado e o legislador, para garantir que todos pudessem viver dignamente, criminalizou o racismo. Discriminar alguém pela cor de sua pele, além de imoral, é criminoso (Lei 7716/89).

Necessário ainda falar dos pontos que Direito e Moral deveriam estar conectadas, mas (ainda) não estão. É o caso da homofobia (que deve, por óbvio, abarcar a bi e transfobia também) que até hoje não foi criminalizada. As pessoas sabem - tanto sabem que mesmo as que agem dessa forma quase sempre negam que sejam preconceituosas arrumando desculpinhas esfarrapadas - que nenhum ser humano pode ser discriminado pela sua orientação sexual. Moralmente já está tudo ok, tudo certo, contudo, o legislador brasileiro, mesmo com o clamor da comunidade LGBT que vem cada dia mais sofrendo ataques violentos, ainda não criminalizou a conduta de desrespeitar direitos (direito a integridade física, psicológica) dos homo/bi/transexuais em razão de orientação sexual. Nesse caso, a lei que já existe se mostra insuficiente para proteger direitos de uma minoria...e aí, vamos defender essa lei? Não, né, vamos defender o que é justo e certo que é criminalização da homofobia.