segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Melô do PSDB -

Lembram daquela musiquinha do grupo 'As meninas', que fez muito sucesso no início dos anos 2000 (ou final dos anos 90, algo assim), e era mais ou menos assim "e o rico cada vez fica mais rico. e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima, sobe e o debaixo, desce"? Ela fez muito sucesso numa época em que o Brasil ia mal. Mal mesmo. O desemprego e a misérias reinavam no país e a música fez sucesso exatamente porque refletia o momento que vivíamos. Uma época em que os ricos ficavam cada dia mais ricos e os pobres cada dia mais pobres.
Se essa música fosse lançada hoje, ela não faria sentido, afinal, o Brasil é modelo no combate à fome, miséria e desigualdade social - inclusive tendo saído do mapa da fome mapa da fome da ONU. O primeiro país a atingir um dos objetivos do milênio!
Infelizmente, essa música engraçadinha pode voltar a fazer sentido, dependendo de quem será eleito no próximo domingo. Não sou paga por ninguém e odeio terrorismo, campanha de medo e etc, mas o que a população precisa? Será que queremos aquele modelo neoliberal (o adotado pelo governo FHC, leia-se) que privilegia empresários milionários em detrimento da população geral ou queremos melhorias para todos, indistintamente?
Eu sei que eu quero continuar num país cujo governo busca dar oportunidades para todos, reduzindo fome, desemprego, taxas de juros e ingerências de organismo internacionais na nossa economia (leia-se: FMI).
Não estou aqui para mudar o voto de ninguém, acho que a essa altura do campeonato, nem seria possível, mas tem muita gente indecisa que deveria ver bem qual seus interesses.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Blog Action Day 2014 - A luta do feminismo

Hoje, 16.10.2014, é dia do blog action day 2014, que é uma espécie de evento que acontece desde 2007 na internet no qual ~blogueiros~ do mundo todo, em um dia escolhido pela organização, para falar sobre um tema específico. São sempre assuntos muito importantes e nesse dia as pessoas usam a internet para chamar atenção para o tema escolhido. Descobri há alguns dias que esse blog action day existia e resolvi participar. O tópico do ano é desigualdade.

A desigualdade reina no nosso planeta. E ela é de todo tipo: econômica, racial, orientação sexual e de gênero. E ela mata. Sim, a desigualdade mata milhares de pessoas todos os anos. A desigualdade econômica mata pessoas que simplesmente não tem o que comer - é só você ter em mente que 1% da população mundial concentra metade da riqueza do planeta. O racismo mata (vide caso Ferguson, nos E.U.A). A homo/lesbo/bi/transfobia, adivinhem só: mata também.  E, por último, mas não menos importante, o machismo mata. E vou utilizar meu espaço no blog action day exatamente para (tentar) abordar algumas nuances do machismo.

Há quem diga que machismo não existe, que as mulheres já conquistaram todos os direitos dos homens, afinal elas podem trabalhar, escolher com quem casar, podem até votar...querem mais o quê? Mas, será mesmo que feminismo era apenas sobre isso? Não que essas não sejam conquistas válidas, muito pelo contrário, são importantíssimas. Por muito tempo as mulheres tinham que ficar apenas em casa cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos. Trabalhar? Nem pensar! OPA! Mas..peraí? Será que era assim com todas as mulheres? Não. As mulheres negras (que quase sempre eram as mais pobres), por exemplo, não eram impedidas de trabalhar, muito pelo contrário, elas precisavam trabalhar para complementar a renda. De toda forma, o fato de poder ter autonomia sobre o corpo, de votar e ser votada, estudar e crescer na vida as mulheres conseguiram, a questão é: até que ponto.

Até que ponto todas nós temos liberdade para fazer o que quisermos com o nossos corpos? Será que essa liberdade é plena? Digo que não. Se usamos roupa curta (para mostrar o corpo que é nosso), somos vadias, piranhas, vagabundas. Se, ao contrário, somos discretas, quase sempre taxadas de frígidas, santinhas (que tem sentido pejorativo sim) e ainda nos dizem "ah você deveria se valorizar mais, assim nunca vai arrumar um namorado", se usa muita maquiagem, é fútil; se não usa nenhuma é porque não gosta de ~se cuidar; se é muito magra também é ruim pq "homem gosta de carne", se é gorda é preguiçosa e tem que fazer regimes insanos e ir pra academia; se corresponde ao padrão de beleza, é fútil, burra, incompetente - nao sei qual motivo, mas as pessoas, principalmente os homens, tendem a acreditar que mulheres bonitas são burras - e pior ainda, quando são feias (leia-se: não atendem ao padrão de beleza vigente) são criticadas, porque só pode ser desleixo. Nós mulheres não podem ser donas nem da nossa própria aparência, porque a sociedade machista quer sempre ditar os nossos comportamentos.

Não bastasse isso, até na hora de escolher profissão: aquela dicotomia horrorosa de "isso é trabalho de homem, aquilo é de mulher". Não tenho dados, mas sei que nas áreas que envolvem as ciências exatas, o número de mulheres é bem reduzido. Será que aquela aquela historia de que mulheres são ruins em matemática é  verdade? MAS É CLARO QUE NÃO. Nós simplesmente não costumamos ser estimuladas, quando crianças, para que essas aptidões se desenvolvam. Então você encontra nas áreas de ciências exatas um número bem maior de homens. As mulheres que chegam lá costumam sofrer muito preconceito, vítimas diretas do machismo que nos diz todos os dias que mulheres têm que trabalhar apenas na área de humanas porque são mais sentimentais, que não temos competência para nos especializarmos e trabalharmos na área que quisermos pq "isso não é coisa de mulher".

Eu sou péssima em matemática. Muito ruim mesmo. Mas não foi falta de estímulo. Minha mãe sempre, desde criança, me dava brinquedos educativos, com formas geométricas, brinquedos de montar, muito quebra-cabeça (desses eu gosto até hoje). Ela me dava bonecas também, eu gostava de barbie e dessas bonecas bebês, mas uma coisa que a minha mãe nunca fez foi me dar outros típicos brinquedos de menina: coisas de cozinha. Aquele fogão, a vassoura, a pia, os jogos de pratos e xícaras. Com tanta coisa pra aprender, pq ela iria me ensinar a fazer tarefas domésticas? Infelizmente, não são todos os pais que pensam assim e acham q esse tipo de brinquedo é "de menina" pq é obrigação da mulher as tarefas domésticas. Não, não é. 

Uma mulher, assim como um homem, tem que saber fazer as atividades de casa sim,  pra saber cuidar de si, não "pra casar". Nunca vi ninguém ensinar meninos  a cozinhar com o argumento de "tem que saber cozinhar pra quando casar". Mas já vi o contrário. E com certa frequência, infelizmente. Não fui criada pra casar. Tudo relacionado a tarefas de casa que minha mãe me ensinou foi dizendo "o dia que tu for morar sozinha e ter a tua vida, tem que saber se virar". E ainda bem que minha mãe me ensinou assim. Gostaria que todas pudessem ter essa oportunidade.

Minhas amigas, ainda tem mais. A nossa aparência não é nossa, a sociedade inteira cuida dela pra que sejamos compelidas a nos achar feias e gastar milhares com produtos de beleza (uma industria muito lucrativa), ou então como se nossa vida inteira devesse ser baseada em nos arrumar pra conseguir homem. Não podemos escolher uma área que gostamos mais pq temos que responder à expectativa de sermos sempre as emocionais que jamais usam a razão. Além disso, precisamos nos submeter a todo tipo de assédio e violência (qualquer tipo de violência, não apenas física) e ainda acham ruim quando reclamamos. Nem na rua, que é pública, temos paz. Chamam de "cantadas", mas eu chamo de ASSÉDIO. Andar na rua e ouvir coisas do tipo "gostosa!", "vou te chupar todinha", "bocetao"..somos abrigadas a aceitar esse tipo de violência??? NÃO, AMIGAS, NÃO SOMOS! Vamos, sim, reclamar, chamar as autoridades competentes, não só pra esse tipo de assédio. No trabalho também, mulheres são vítimas constantes de assédio sexual e muitas, que necessitam do emprego, acabam se submetendo. Tá na hora de dar um basta! Sem mencionar aqui a violência doméstica. Quantas mulheres apanham e morrem pq os esposos pensam ser donos de um objeto? Quantas mulheres na rua são estupradas pq homens se sentem no poder de usar de um corpo sem autorização, apenas pra mostrar que podem tudo? E, pior, o destrato conosco é tão grande que quando queremos denunciar, passamos pelas situações mais constrangedoras possíveis. É polícia despreparada para receber vítimas desse tipo de violência, é falta de equipamentos e profissionais para que possamos fazer os exames de corpo de delito com o mínimo de constrangimento, é a sociedade nos culpando de crime dos quais somos vítimas.

O machismo faz com que não possamos ser dona do nosso corpo. O machismo nos tira nossos desejos e aspirações profissionais. O machismo machuca. O machismo mata! 

Eu, como feminista que sou, estou aqui para convidar todas para lutar contra esse sistema que prime a todas nós (e oprime os homens também), e para dar mais visibilidade ao tema. ao me utilizar do espaço do blog action day. Estou aqui para (tentar) acabar com o mito criado pelo machismo de que mulheres são inimigas, mulheres são fofoqueiras, mulheres não são confiáveis. Esse tipo de discurso serve apenas para nos afastar e, desconfiando uma das outras, deixemos de nos unir para lutar contra todo esse sistema tão cruel. Temos que nos unir.

Feminismo não é sobre mulheres conquistarem o mundo e passarem a oprimir os homens. Feminismo é sobre escolhas, opções, oportunidades para os gêneros. Feminismo é sobre igualdade!


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Moral e Direito

Estamos quase em 2015 e ainda tem estudante de Direito - prestes a se formar!! - que acredita mesmo que a principal atribuição dele será "defender leis". Uma faculdade inteira e não aprenderam que Direito não é só lei, se fosse, seríamos chamados de "operadores da lei" e não de "operadores do direito". Pra quem acredita piamente nisso, que se faz direito com o objetivo puro e simples de se fazer com que a lei seja cumprida/defendida, lembre-se: tudo que Hitler fez estava abarcado pela legislação da época. E aí, você, que se considera um operador de leis, defenderia uma legislação que permitisse tais atrocidades?

A discussão em torno de direito e moral é extensa e antiga. Sabe-se que Direito e Moral não devem se confundir, são distintos, porém possuem sim pontos de intersecção. Tipo aqueles desenhos de matemática lá do ensino fundamental.

Algumas atitudes consideradas imorais não são necessariamente criminosas. Exemplo: adultério é considerado como imoral, contudo, desde 2006 não figura mais no CP como crime. Nesse caso específico, a conduta está no círculo da moral, porém longe da intersecção com o Direito, isso porque não cabe ao Estado prender ninguém por ter violado a fidelidade conjugal (hoje em dia não se pode mais nem falar em efeitos na esfera cível, haja vista não haver mais que se falar em separação judicial e discussão da culpa). 

Há também os pontos convergentes. O racismo é imoral, sabe-se que discriminar seres humanos pela sua etnia é errado e o legislador, para garantir que todos pudessem viver dignamente, criminalizou o racismo. Discriminar alguém pela cor de sua pele, além de imoral, é criminoso (Lei 7716/89).

Necessário ainda falar dos pontos que Direito e Moral deveriam estar conectadas, mas (ainda) não estão. É o caso da homofobia (que deve, por óbvio, abarcar a bi e transfobia também) que até hoje não foi criminalizada. As pessoas sabem - tanto sabem que mesmo as que agem dessa forma quase sempre negam que sejam preconceituosas arrumando desculpinhas esfarrapadas - que nenhum ser humano pode ser discriminado pela sua orientação sexual. Moralmente já está tudo ok, tudo certo, contudo, o legislador brasileiro, mesmo com o clamor da comunidade LGBT que vem cada dia mais sofrendo ataques violentos, ainda não criminalizou a conduta de desrespeitar direitos (direito a integridade física, psicológica) dos homo/bi/transexuais em razão de orientação sexual. Nesse caso, a lei que já existe se mostra insuficiente para proteger direitos de uma minoria...e aí, vamos defender essa lei? Não, né, vamos defender o que é justo e certo que é criminalização da homofobia.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não serei tolerante com os intolerantes

Ontem, 28.09.2014, no debate entre os candidatos a presidência da República promovido pela Record, Levy Fidelix disse abertamente, reportando-se aos homossexuais, que "devem ser tratados bem longe" dele; disse que "aparelho excretor não reproduz"; afirmou categoricamente "nós, que somos maioria, devemos combater a minoria".
Quando um CANDIDATO A PRESIDÊNCIA, (ainda que seja um que não tem a menor possibilidade de vencer) fala abertamente em rede nacional que "a maioria deve combater a minoria", claramente um inflamado discurso de ódio à comunidade LGBT. "Combater"? o que ele quis dizer com isso? Pra mim, pareceu querer dizer que devemos lutar contra/extinguir. Vocês sabem quem mais quis extinguir uma minoria porque sentia-se pertencente a uma raça superior? Hitler.

Não bastasse o dito candidato falar todos aqueles absurdos, ainda encontrei gente que defende. Postei lá na ~rede social do mal~ que pelas suas declarações, agora sabemos que não é apenas o candidato Everaldo (que sempre se mostrou intolerante à causa LGBT) que é desprezível. E aparece alguém pra defendê-lo. Sim, acreditem. Um homem usa seu espaço na TV para dizer que a comunidade LGBT precisa de tratamento bem longe (é tipo um apartheid, com a política de segregação, combinada com nazismo que acreditava na tal supremacia das raças e buscava o aperfeiçoamento desta através de tratamentos médicos e etc), associa a homossexualidade à pedofilia (outro absurdo que demonstra a total ignorância e idiotice do cara), fala que essas pessoas devem ser combatidas e  tem gente que fala em liberdade de expressão. "É a opinião dele, temos que respeitar". Não, não temos que respeitar esse tipo de opinião.

Nenhum direito fundamental é absoluto, nem o direito à vida, imagine o direito à liberdade de expressão. O direito de você expressar sua opinião tem limites e esse limite é: o direito das outras pessoas. Ora, o dito cujo não respeitou, de maneira alguma, a comunidade LGBT ao dizer que eles precisam de tratamento, associar a pedofilia e incitar que sejam exterminados, então pq ele deveria ser respeitado? Incitar ódio a uma parcela já socialmente marginalizada não é direito à liberdade de expressão, é pura e simples demonstração de intolerância. Intolerância essa que exclui, marginaliza, priva de direitos e mata.

Não serei tolerante com os intolerantes. Isso pq esses intolerantes, esses mesmos que defendem a restrição de direitos a determinados grupos em razão de etnia, orientação sexual, gênero, ou seja lá qual motivo, só são intolerantes pq, adivinhem só, eles já têm todos os direitos que poderiam. Não são marginalizados, não são excluídos, não são mortos por suas preferências, por sua cor, por orientação sexual. E infelizmente eles usam o poder que têm para manter esses direitos fundamentais - inerente a todas as PESSOAS - como privilégios. Esse tipo de gente mesquinha, egoísta, sem noção, acha que dignidade deve ser privilégio de seus iguais.
Direitos são...direitos. Todo ser humano merece que sejam respeitados, protegidos e, de forma nenhuma, diminuídos.

Ser contra o casamento civil igualitário não faz de você, necessariamente, um homofóbico. Você pode ser contra  o casamento homossexual não se casando com uma pessoa do mesmo sexo. Mas se você, por ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, acha correto que o Estado restrinja o direito das pessoas que decidem fazer isso, mesmo que você nunca tenha dado lampadada na cara de um homo/bi/transexual, você é homofóbico. Ser favorável a restrição de direitos de um grupo simplesmente porque você discorda deles, é ser intolerante. 

O que me deixou abismada, além do discurso de ódio proferido em rede nacional, foi que a candidata que havia feito a pergunta a Levy sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ficou calada pros impropérios ditos pelo bigodudo. Em sua réplica, poderia ter sido mais enfática e combativa como costuma ser em suas respostas, ela poderia ter falado abertamente sobre a incitação de ódio que ele estava fazendo, apologia à intolerância, mas não. Muitos a defenderam dizendo que ela pode ter ficado chocada com tanta coisa estapafúrdia que foi dita. Sim, pode ser. Eu mesma (e creio que todo mudo) demorou uns minutos para processar aquilo que foi dito, mas os candidatos devem estar preparados para responder esse tipo de declaração absurda. Ainda mais que, no último bloco, depois do intervalo, ela teve tempo de pensar e poderia usar seus minutos finais pra combater esse tipo de pensamento. Infelizmente não foi o que aconteceu, não apenas Luciana, mas NENHUM dos candidatos ali presentes se pronunciou, todos preferiram silenciar. E o silêncio, assim como o discurso do homem, foi doloroso.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SÍNDROME DA MISOGINIA INVOLUNTÁRIA - Desculpa para absolvição dos crimes de ódio

Estava eu ontem no Twitter quando vi uma galera falando em "Síndrome da Misoginia Involuntária". Falando do absurdo que é isso, claro. As pessoas comentavam a respeito de uma tese de defesa de um advogado, cujo cliente foi condenado, que era basicamente: o cara matou uma mulher (professora dele) porque sofre dessa tal Síndrome da Misoginia Involuntária, doença que o levaria a sentir ódio pelo sexo feminino, levando ao extremo de assassinar, mas é inimputável, porque doente o coitado [ironia], né.
Achei isso um absurdo sem tamanho e fiquei sem entender de onde saiu essa síndrome e quem falou pra esse advogado que ela existe ou, ainda, se foi esse irresponsável que inventou ela. Joguei no Google "síndrome da misoginia involuntária" e encontrei um texto, não oficial, de um blog pessoal qualquer, que datava de 2007!!!! É muito absurdo o que diz lá, então não vou passar o link, mas nesse texto diz: 

          (...)mas há uma forma muito mais branda, porém não menos nociva, da misoginia. É a SMI, que geralmente ataca rapazes tímidos e sensíveis e se manifesta depois de decepções amorosas. Não qualquer decepção, claro; tem de ser traumática, humilhante, daquelas que escorcham com a auto-estima do cidadão. O requinte final, que enraiza a SMI mais fundo na alma, são os discursos femininos do tipo “Ah, Fulano é como se fosse meu irmãozinho…”, “Eu gosto de você, mas não ‘desse’ jeito…” e o clássico “Mas a gente é só amigo…”. Destroçado qual um personagem de letra de bolero, o rapaz sente um desejo atávico de mandar à merda tudo quanto é mulher que cruzar seu caminho".


Tipo assim: OI? Rapazes tímidos e sensíveis??? Pra mim, parece aquele cara que ficou na chamada "friendzone" (termo que detesto, mas não é o caso aqui) e achou terrível ser dispensado. O tipo de cara mimado que não aceita "não" como resposta e aí mata as mulheres que supostamente o desprezaram - como se toda mulher que falasse com um cara tivesse obrigação de querer fazer sexo com ele e/ou ter um relacionamento amoroso - aí um cara faz isso e vem uma galera dizer que ele é doente???? Crime de ódio não é doença. Homens misóginos não matam porque são doentes, matam porque querem demonstrar poder sobre as mulheres. Querem mostrar que "se eu não posso ninguém pode", querem dizer pro mundo que a vontade deles deve prevalecer e que uma mulher não tem o direito de negar a ele o que quer que seja. 

"Ah mas o cara que pensa assim só pode ser doente". NÃO! Dizer que um cara desses é doente é tirar a responsabilidade dele, é dizer que ele não tem discernimento, que ele não tem consciência do que faz, quando, na verdade, ele tem sim. E muita. 
Enquanto esse tipo de barbaridade for tratado como doença ou "crime passional", porque o pobre moço desprezado amava demais e blablabla as mulheres continuarão sendo vítimas de feminicídio. Até quando a mídia vai ignorar que essas atrocidades são crimes específicos contra mulheres. Não é porque "ama muito", ou, agora, porque "é doente", é gente que sabe muito bem o que faz. É o machismo fazendo mais e mais vítimas todos os dias.

Mais uma coisa: sei que todos têm direito a defesa (inclusive misóginos precisam de advogado), mas pra garantir que a pena aplicada seja justa (nesses casos onde a pessoa é realmente culpada e ré confessa) etc etc. Esse advogado do cara que quer a ABSOLVIÇÃO do indivíduo por causa dessa síndrome que foi criada por uma mente totalmente viajada, é, no mínimo, irresponsável, porque ele está abrindo um precedente. Agora todo cara que matar uma mulher vai alegar essa síndrome.

Fiquei com tanto ódio desse cara que, se eu cometer homicídio, será que aparece alguma advogada pra me defender usando a tese de "síndrome da MISANDRIA involuntária"????

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Caso Aranha e os discursos que (re)afirmam o racismo

Com certeza todo mundo viu a polêmica com o goleiro do Santos, o Aranha. Tava ele lá de boa fazendo que ele é pago pra fazer quando um grupo torcedores do time adversário (Grêmio, no caso), iniciaram uma série de insultos racistas. Aranha, como conhecedor de seus direitos direitos, reclamou para o árbitro que fez o que costuma ser feito em casos de racismo nos estádios: NADA. Após as reclamações do goleiro e uns instantes de jogo paralisado, mandou o jogo prosseguir. Apenas. Ao final da partida, o tal grupo de torcedores continuou com os insultos, e Aranha, lindamente, respondeu, batendo nos braços "sou preto sim". Se orgulha da cor e demonstra isso da melhor maneira possível: não aceitando o racismo.



As câmeras presentes no estádio filmaram o momento em que o grupo de racistas começou com os xingamentos preconceituosos e, principalmente, conseguiu focar bem no rosto de uma das torcedoras que proferiu os impropérios. A tal torcedora foi (e está sendo) achincalhada por milhares de pessoas. Já tentaram até colocar fogo na casa dela, ela chora, diz que está traumatizada, que não fez por querer etc etc. Não tinha só ela ali gritando aquele tipo de coisa, tinham muitos outros, ela acabou pagando o pato e está sofrendo a punição social por isso (não sou a favor de que ela sofra ameaças, nem que façam nada contra a integridade física ou psicológica da moça, já foi aberto inquérito policial para que ela e os demais torcedores sejam punidos) e sofrerá também a punição existente no Direito para isso. Ela e os outros racistas.
A questão aqui é: a reação das pessoas em relação a isso. Tenho acompanhado as notícias sobre o caso e o que percebo é como a moça vem sendo tratada como vítima. Sim, ela que chamou Aranha de macaco e ela quem está sendo tratada como vítima. Diz aos 4 ventos que não é racista, que "já ficou com um negro", mas, amiguinha, ficar com um negro não faz de você menos racista (qualquer um que estudou um mínimo de história do Brasil sabe que os senhores de escravos  tinham casos, à força na sua maioria, com as suas escravas. Negras). As desculpas são as mais esdrúxulas possíveis, até mesmo dizer que "foi no calor do momento mas não tinha a intenção de ofender ninguém". Oi? 
Li um negócio bem interessante no twitter, que meio que fala sobre a tal "inconsciência" do ato da moça.



 Não é uma desculpa pra atitude racista dela, mas algo pra mostrar o quanto a democracia racial que vivemos no Brasil é um mito. O racismo tá tão presente que as pessoas são racistas, mas nem se dão conta. Tanto que nas milhares de declarações dela, ela afirma que não é racista. Bom, se chamar um negro de macaco não é racismo, eu sinceramente não sei o que é.
A moça foi ao programa Encontro com Fátima Bernardes e aqui (leiam, por favor) dá pra ver o teor da ~atração matinal que, além de colocar apenas brancos pra discutir racismo, ficou procurando desculpas pro ato...racista da torcedora. Ridículo.
Pior ainda foi ver que o Pelé, grande jogador (já conhecido por falar muitas abobrinhas), disse que Aranha não deveria ter parado o jogo e que o racismo deve ser coibido, mas não nos estádios. Faz sentido? Nenhum. O Pelé, nem depois de velho, criou consciência de que ele também é negro e deveria repudiar a atitude dos torcedores que foram racistas e não do goleiro que parou o jogo pra ter garantido seu direito. Ele foi discriminado em razão da cor, sofreu injúrias raciais de um grupo de pessoas e quis que essas pessoas fossem punidas e o Pelé acha que ele tá errado? Por que não se pode coibir o racismo nos estádios? Por acaso o estádio é um lugar que fica num limbo onde todo mundo pode fazer o que quiser e ficar por isso mesmo? 
Não bastasse o Pelé, o nosso amado [ironia] Felipão também decidiu se pronunciar. Falando um monte de asneiras, claro. O infeliz falou que "queria ver se iam cair na esparrela do Aranha de novo". Esparrela? Ele acha mesmo que ser chamado de macaco, preto fedido é esparrela? Acha que alguém não sofre toda vez que é insultado pela cor de sua pele e que vai usar isso como armadilha pra seja lá que motivo? Tem que ser, no mínimo, tão racista quanto os ofensores de Aranha pra pensar isso.
O fato é que o racismo só vai acabar quando todos tiverem a mesma atitude de Aranha e exigirem punição. Injúria racial é crime e deve ser punido e foi o que ele fez. Não se deixou levar pelo senso comum de que "se ficar falando as pessoas não vão parar" porque é exatamente o oposto. Se ninguém falar nada e continuar aceitando como normal, o racismo vai continuar presente. 
Quase 2015 e ainda tem gente racista e, pior, gente que acha que racismo não existe

UPDATE: Ontem, 18.09.2014, teve mais um jogo entre Santos e Grêmio. Aranha foi vaiado insistentemente pela torcida gremista. Foi vaiado porque agora ele é o culpado pelas ofensas racistas que sofreu. Os racistas/imbecis torcedores acham que a culpa do Grêmio ter sido eliminado da Copa do Brasil foi culpa de Aranha. que não tinha o direito de se sentir ofendido com o que aconteceu. É a velha culpabilização da vítima, né. Se ele não fosse tão "sensível", nada disso teria acontecido. Absurdo. Pra essas pessoas, você que sofre racismo tem mais é que aceitar e ficar calado, né, afinal quem mandou ser preto. Por mim, tudo podia responder criminalmente. Aqui tem tudo o que aconteceu na partida de ontem, inclusive o repórter que, querendo se mostrar imparcial, prestou um desserviço pra sociedade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

REFORÇANDO ESTERIÓTIPOS - Sexo e as Nega

Estava vendo a novela das 21h - adoro novelas, foi mal - quando, em uma das pausas para o comercial, vejo a globo (sempre ela) anunciando uma nova série chamada: Sexo e as Nega. Na hora eu pensei "opa! pera lá, eu ouvi certo? Vão botar no ar uma série (ou minissérie) chamada SEXO E AS NEGA??????". 




Tava com o meu namorado na hora (pessoa muito inteligente, sensata e que entende muito bem as injustiças sociais e etc) falou pra mim "como tu pode dizer que a série é racista se tu nem assistiu?"

Não precisa ser historiador pra saber que os senhores de escravos estupravam as escravas sempre que queriam manter relação. Quem já leu Casa Grande e Senzala, sabe. Pra quem se interessar, indico também a obra Entre a Luxúria e o Pudor - a historia do sexo no Brasil que fala de como os primeiros portugueses viam as índias e, mais tarde, de que maneira tratavam as escravas - utilizando-as como força de trabalho e brinquedo sexual pra fazer tudo aquilo que as esposas, brancas, não faziam. Assim, um ditado da época era "negra pra trabalhar, mulata pra foder e branca pra casar". 
Acabada a escravidão (que durou 350 anos), as mulheres negras e mulatas continuaram carregando esse esteriótipo de mulheres hipersexualizadas. Hoje, apenas têm espaço na mídia no carnaval do Rio de Janeiro (nao sei se o mesmo no de São Paulo) como as lindas e gostosas passistas, por que é o que elas são: gostosas. Aparecem apenas pra mostrar o corpo e depois são esquecidas até que chegue o próximo carnaval. Além disso, quando retratadas na TV, sempre representam a mulher extremamente sensual que é rainha de bateria, ou empregada doméstica (e ainda tem aquelas que fazem a empregada doméstica extremamente sensual, o que lembra a escravidão, né). Muito raro um papel de protagonista ou que não trabalhe em serviços em que não exigem alto grau de qualificação técnica. Ninguém é menos digna por executar tais serviços, de forma alguma, mas sabemos que hoje as mulheres negras têm muito mais espaço, podem ser médicas, advogadas, engenheiras...o que quiserem! Mas não é como costumam ser representadas na TV...o esteriótipo de pessoa que sempre estará na classe mais baixa da sociedade segue reforçado diariamente pela grande mídia.
Aí, pelo que vi do comercial: esse nome racista e machista mais 4 mulheres faveladas, que têm subemprego.....tem como pensar que "o conteúdo é bom"? Não mesmo. Nem precisei assistir pra saber.
No dia seguinte, vi na internet notícias de que já havia 7 denúncias contra o programa, todos feitos por movimentos negros. Vi textos em blogs, cartas aberta e tudo mais sugerido até mesmo um boicote ao programa.Fiquei muito feliz em saber que eu, mulher parda, apesar de não sentir exatamente o peso que é carregar todo esse estigma, consegui visualizar a problemática da situação. 
Então, não, eu não preciso assistir pra saber que o programa será uma porcaria e só servirá pra reforçar os esteriótipos já existentes.

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O autor, Miguel Falabella, se defende das acusações dando declarações absurdas. Fala, ainda, que está empregando e dando oportunidade para atores e atrizes negras que dificilmente conseguem espaço. Sim, atores e atrizes negros quase nunca conseguem espaço na mídia, pouquíssimos conseguem chegar ao status de não precisar fazer os papéis de sempre, mas fazer uma séria inspirada em Sex and the City (famoso seriado norte-americano cuja ideia central consiste em contar a vida e aventuras de 4 mulheres brancas e ricas de Nova York) e colocar 4 negras pra fazer os papéis de sempre (faveladas, subemprego) e ainda colocar que vão transar muito é uma oportunidade que serve única e exclusivamente para, repito, reforçar esteriótipos que essas pessoas já carregam no seu dia-a-dia. 



P.S: meu namorado acabou entendendo e concordando porque, nesse caos pelo menos, não havia nada de errado em pré julgar.
PPS: aqui, aqui e aqui 3 blogs com textos maravilhosos sobre